Paradigmas e paradoxos

desconstruindo construtos: TIMEANDDESIRE

Desde nossa infância, modelos de vida nos são impostos pela sociedade. Pais, professores, políticos, pessoas em nosso dia a dia, todos tentam moldar nossa visão de mundo a fim de regular nosso comportamento. E, na grande maioria das vezes, eles conseguem. Apesar de ser problemática a imposição de um modelo de vida, o verdadeiro dilema reside em quando a visão de mundo imposta contradiz nossa natureza e a própria realidade.

A matrix está em todo lugar à nossa volta. Mesmo agora, nesta sala, você pode vê-la quando olha pela janela, ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho, quando vai à igreja, quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não enxergue a verdade. – Morfeu, do filme Matrix

No filme Matrix, seres humanos vivem em um mundo de sonhos gerado por computadores, uma realidade virtual chamada “matrix” que funciona como uma prisão para a mente das pessoas. Por tratar-se de um mundo virtual, qualquer objeto encontrado ali – um carro, uma cadeira, um prédio – poderia servir de exemplo para mostrar que aquela realidade é de fato falsa. No entanto, para explicar como é o sistema ao qual seres humanos já nascem submetidos, Morfeu usufrui de exemplos pertinentes não só à matrix mas também à nossa realidade – uma realidade que, apesar de não-virtual, é permeada por ideologias nacionalistas, religiosas e capitalistas.

Visão de Mundo

Na ciência cognitiva e na filosofia no geral, a perspectiva que você adquire como membro de uma sociedade para fazer sentido da realidade é chamada de “visão de mundo”. É a maneira que você interpreta o mundo e pensa sobre as coisas que você faz para organizar sua vida e dar significado a ela, e é composta pelas crenças, pelos costumes, pelos valores da sociedade. Deste modo, sua visão de mundo lhe fornece uma imagem da realidade que é não só influenciada, mas formada por ideologias – ideologias que, na maioria das vezes, são adotadas sem questionamento algum.

Sentimos que nosso ponto de vista é bastante particular, quando, na verdade, ele é produto da geopolítica do território onde vivemos, e nos é imposto pelo sistema sócio-econômico-cultural ao qual já nascemos submetidos. O que pensa você do mundo? Quais são seus planos para o futuro? O que é certo, e o que é errado? Como pretende atingir seus objetivos? O que é verdadeiro, e o que é falso? Apesar da complexidade dessas questões, todos nós temos opiniões – e convicções! – quanto a elas. Ou pelo menos agimos como se tivéssemos. Mas e se o raciocínio por trás de uma ideologia que nos é imposta estiver equivocado? E se os critérios que formam nossa visão de mundo forem contraditórios?

Paradigmas

O raciocínio e os critérios que justificam o modo que vemos a realidade são formados por paradigmas. Paradigmas são exemplos excepcionalmente típicos que servem de modelo para algo; são regras, formais ou não, que estabelecem limites quanto a determinado assunto. Por exemplo, o paradigma da “pessoa bem-sucedida” que nos é imposto pela sociedade é o de uma pessoa que se esforça para obter e manter um alto padrão de vida, mesmo a custo da sua qualidade de vida. Portanto, se você tem a intenção de ser uma pessoa bem-sucedida, você precisa buscar uma boa educação profissionalizante para que você possa dedicar a maior parte do seu tempo a um trabalho que talvez você goste, talvez não (provavelmente não), para que você possa financiar carros, imóveis, viagens (mas nem tantas) e eletrônicos, além de muitas outras coisas das quais você não precisa.

Outro paradigma familar a todos nós é o do relacionamento amoroso, onde duas pessoas, um homem e uma mulher, participam de rituais religiosos e assinam contratos garantindo que seus sentimentos e suas intenções permanecerão os mesmos para todo o sempre. O homem e a mulher, então, têm filhos e passam a buscar juntos o padrão de vida necessário para uma vida feliz, mesmo a custo da qualidade de vida do casal e dos filhos. Se houve um equívoco da parte do homem ou da mulher (ou dos dois) ao prometer amor eterno, o casal deve, mesmo assim, manter seu contrato a fim de proteger seus filhos da realidade. Mas, felizmente, o paradigma do relacionamento amoroso que nos é imposto pela sociedade já inclui a possibilidade de divórcio em alguns casos, o que permite que cada indivíduo retome as buscas pelo parceiro ideal para que eles possam assinar novos contratos.

Paradoxos

O problema com os paradigmas descritos acima, assim como tantos outros, é que eles são paradoxais. Eles fornecem uma descrição do mundo que contradiz a realidade e prescrevem comportamentos que contrariam nossa natureza. Isso significa que a nossa visão de mundo, isso é, a maneira que nós interpretamos a realidade e damos significado às nossas vidas, é fundamentalmente paradoxal, gerando crises existenciais não só em indivíduos, mas em sociedades inteiras. Nós corremos o risco de passar por toda uma vida buscando a felicidade sem saber ao menos o que ela é, procurando respostas quando, na verdade, deveríamos questionar os critérios das questões que nos são impostas e formular novas perguntas.

Nós precisamos questionar os aspectos mais fundamentais da nossa existência – aspectos que, por parecerem verdades absolutas, estabelecem falsos limites. Eliminando os pressupostos que formam a visão de mundo que nos é imposta pela sociedade, nós podemos quebrar paradigmas e rejeitar modelos de vida que não são só superficiais, mas contraditórios. Nós podemos transcender a novas realidades. Essa é uma tarefa árdua, mas, felizmente, a filosofia nos fornece as ferramentas necessárias para isso. E apesar de ser considerada uma relíquia acadêmica inútil e estar confinada na universidade há tempos, o Enganos Mundanos pretende trazer a filosofia de volta para seu mais importante lugar: o dia a dia das pessoas.

Mas nem todo mundo tem paciência – e tempo, dizem – para refletir sobre essas questões. Mas o que pode ser mais importante do que enxergar a realidade como ela é, livre de distorções? Não ter tempo para melhor compreender a natureza da realidade por estar ocupado com a vida é como não ter tempo de ver no mapa como chegar em um lugar por estar ocupado dirigindo até lá. É paradoxal. Para focar no essencial e sermos mais verdadeiros a nós mesmos – ou seja, para sairmos da matrix –, nós precisamos desconstruir nossa experiência no mundo para melhor compreender os mecanismos por trás de nossas ações. É com isso que o Enganos Mundanos poderá te ajudar.

Foto: TIMEANDDESIRE

Bruno Vompean

Bruno Vompean

Sou filósofo, criminólogo, brasileiro e sonhador, especializado em Budismo, Psicologia e Saúde Mental pela Universidade de Toronto. Gosto de desestruturar a visão de mundo das pessoas, quebrando paradigmas para que elas possam transcender suas realidades. Sim, sou um cara chato e estou aqui para incomodar.

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