Educação para quem?

A educação é central para o desenvolvimento de toda e qualquer sociedade, mas, infelizmente, são raros os governos que levam a sério a educação de seus cidadãos. É verdade que a educação não é mais tão menosprezada quanto antigamente, quando boa parte da população sequer completava o ensino médio, mas, como nós vimos no último post, a educação ainda é desvalorizada. É por isso que, apesar de ser um direito, a educação continua sendo um privilégio.

Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. – Paulo Freire

No Brasil, há pouco mais de 50 milhões de estudantes estudando em cerca de 190 mil escolas espalhadas por todo o país, do ensino infantil ao superior de tecnologia. Desse número, a grande maioria estuda na rede pública, e aproximadamente 7 milhões de alunos estudam em escolas particulares [1]. Dentre essas, estão as cerca de 100 escolas bilíngues do país, assim como tantas outras que oferecem métodos de ensino diferenciados e que podem chegar a custar mais de R$3000 por mês. Dentre as públicas, estão as escolas mais precárias do país, como as rurais que sequer contam com energia elétrica e saneamento básico. No Brasil, o número de crianças e adolescentes que sequer vão à escola chega a quase 4 milhões [2].

São inúmeras as contradições geradas pela desigualdade social no Brasil, e uma delas está relacionada ao ensino superior: as melhores universidades do país são públicas e completamente gratuítas, mas, na maioria das vezes, só tem acesso a elas quem teve acesso a uma ótima educação básica. O problema é que, no Brasil, isso significa que acesso ao ensino superior público é, na maioria das vezes, só para quem teve (e tem!) dinheiro para estudar em escolas particulares, uma contradição que gera ainda mais desigualdade, alimentando o ciclo vicioso da disparidade social brasileira. Por que nós deixamos com que isso aconteça?

Educação bancária

Como nós vimos no último post, a educação é vista como uma atividade meramente profissionalizante, e isso significa que nós nos contentamos em ter o que Paulo Freire denominava de “educação bancária”. Trata-se de um sistema educacional onde a única responsabilidade do professor é a de transferir conhecimento aos seus alunos. Seu trabalho é o de depositar informação na cabeça do aluno assim como se deposita dinheiro em uma conta bancária. Nesse processo, o estudante é totalmente passivo, e deve estar atento apenas para que sua mente possa ser preenchida com os fatos narrados pelo professor – fatos sobre um mundo que, por sinal, já foi compreendido por ele.

Com esse ponto de vista sobre a educação, não é à toa que ela continua sendo um privilégio. Se o ensino se resume à transferência de conhecimento, e educação é sinônimo de oportunidade de trabalho, então quanto menos instrução o outro tiver, menos informação ele terá e mais oportunidades no mercado eu terei. E mais serão as chances do meu filho de passar em um vestibular. Dessa forma, quem tem dinheiro para pagar escolas particulares – como os que governam este país – não tem o porquê se preocupar com a qualidade de ensino das escolas públicas. Quem não tem dinheiro pode até se preocupar, mas com a convicção de que eles nada podem fazer para mudar algo.

O problema é que a educação não funciona assim, e nós não vivemos em uma sociedade de profissionais. Nós vivemos em uma sociedade de cidadãos. Desse modo, o resultado desse sistema educacional não é menos competição por maior padrão de vida, mas maior competição por qualquer qualidade de vida. Em outras palavras, quem garante apenas a sua educação pode até aumentar as suas chances de arrumar um bom emprego, mas, no processo, ele aumenta também as suas chances de ser assaltado e assassinado. Apenas uma sociedade cega para o fato de que nós vivemos em um mundo interdependente, que não compreende que a educação se refere à formação de um cidadão, de um ser humano, e não de um mero profissional, permite que a educação seja bancária e, como se não bastasse, um privilégio de poucos.

Educação para todos

Como explica a frase de Freire citada acima, ensinar é desenvolver a capacidade do aluno de pensar por si mesmo. Ou seja, é ensiná-lo a filosofar. Do ensino fundamental ao superior, o aluno deve aprender a refletir sobre as matérias que lhe são apresentadas no decorrer dos seus estudos. Afinal, para simplesmente obter informações, para adquirir conhecimento de certos fatos, nós não precisamos ir à escola. Para isso, nós hoje temos a internet.

“A escravidão foi abolida no Brasil no dia 13 de maio de 1888”; “no dia 31 de março de 1964, um golpe de estado resultou na ditadura militar que governou o país até 15 de março de 1985”; e “em 2011, com um PIB de mais de 4 trilhões de reais, a economia brasileira foi classificada como a sétima maior economia do mundo”. Essas são todas informações que eu, confesso, não sabia de cor, mas que eu aprendi com três buscas no google que levaram menos de um minuto. Mas quais foram as causas desses eventos históricos? Quais os efeitos? Como que a minha vida é moldada por eles? O que isso significa para o futuro? Essas são questões cujas respostas não podem ser simplesmente transferidas, e que, portanto, devem ser discutidas para instigar no aluno a curiosidade necessária para que ele possa se tornar um ser crítico e inquiridor, capaz de – e interessado em – exercer sua cidadania.

A educação é responsável pela continuidade social da vida [3]. Por isso, a educação deve ser “orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais” [4]. Com esse ponto de vista, fica claro que educação de qualidade é para todos, independente de cor, gênero e classe social, e isso não só para o bem de todos os outros mas para o nosso próprio bem. Aliás, como nós podemos distinguir o outro da gente se, juntos, nós formamos uma só sociedade?

Grande parte do problema da educação brasileira se dá ao fato de que “a elite resolve a educação de seus filhos e ignora a do povo” [5]. Mas talvez pior ainda seja o fato de que, ao invés de se educar, boa parte da população que tem acesso privilegiado à educação simplesmente treina para exercer alguma profissão. Se antigamente eram básicas as necessidades que restringiam as possibilidades de estudo das classes trabalhadoras, hoje são supérfluos os motivos que levam jovens de classe média a estudar o que não querem visando única e exclusivamente o âmbito profissional de suas vidas.

Para que nós possamos mudar o Brasil, nós precisamos mudar o sistema educacional brasileiro. Mas, para isso, o nosso ponto de vista sobre a educação precisa mudar: nós precisamos vê-la como uma atividade que, para o bem de todos, visa o desenvolvimento pessoal de todos. E nós só temos a ganhar com isso, afinal, quando parte da população não compreende – e muito menos exerce – o seu papel na sociedade, ninguém ganha e todos perdem.

Filosofia da educação: uma observação

Filosofia da educação é um ramo da filosofia aplicada que investiga o significado, o propósito, as metas, as formas e os problemas da educação, refletindo sempre sobre a relação entre a educação e o funcionamento da sociedade. Seu tema central é, portanto, o da educação; seus métodos, no entanto, são os da filosofia. É possível encontrar vestígios da filosofia da educação nas teorias de diferentes filósofos de diferentes épocas, de Platão e Aristóteles a Kant e Heidegger. Paulo Freire, com sua filosofia da educação, é considerado um dos maiores pensadores brasileiros da história.

Quais deveriam ser os propósitos da educação? Quais as suas finalidades? Quem deveria ter poder sobre o sistema educacional? Qual é a relação entre justiça e educação? Quando nós refletimos sobre essas questões, nós nos engajamos com a filosofia da educação. Foi justamente isso o que nós fizemos neste (e no último) post.

[1] As informações são do Censo Escolar de 2012, publicado pelo MEC.

[2] De acordo com estudo feito pela UNICEF e pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

[3] Expressão do filósofo pragmático estadunidense John Dewey, cuja filosofia da educação está entre as mais influentes do século 20.

[4] Conforme o Artigo 26(2) da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas.

[5] Frase emprestada do educador e senador Cristovam Buarque.

Foto: Projeto Beira de Estrada

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