Educação para quê?

Até meados do século passado, a educação era considerada um luxo desnecessário por grande parte da população, que via no trabalho a única forma de garantir sua sobrevivência. Era relativamente comum, por exemplo, que crianças largassem os estudos ainda no ensino fundamental, muitas delas incentivadas pela própria família. Hoje, todos dizem reconhecer o valor da educação, mas, com um pouco de reflexão, a gente vê que, na verdade, estudar ainda é considerado perda de tempo.

A capacidade de aprender, não apenas para nos adaptar mas sobretudo para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a, fala de nossa educabilidade e um nível distinto do nível do adestramento dos outros animais ou do cultivo das plantas. – Paulo Freire

Quando se trata de educação, o ponto de vista da sociedade parece ter mudado imensamente nas últimas décadas. Mas se por um lado a educação é hoje considerada fundamental, por outro ela ainda é considerada supérflua. Mas será mesmo? Afinal, seria difícil conhecer alguém que diga ser contra a educação; alguém, por exemplo, que diga ao seu filho pequeno que ele não precisa ir à escola, ou que diga à sua filha adolescente que é perda de tempo estudar. Eu mesmo não conheço ninguém.

E isso é justamente o que acontecia até pouco tempo atrás. Isso porque, para garantir o sustento da família, pais contavam com a mão de obra de seus filhos mais velhos, que precisavam trabalhar – ambos dentro e fora de casa – para contribuir com a renda familiar. Mas num momento onde o número médio de filhos por família era de seis – a média atual varia entre um e dois –, as crianças mais velhas muitas vezes não passavam dos 14 anos de idade – e nem do ensino fundamental – quando eram obrigadas a parar de estudar. E esse é um fato que, na verdade, não surpreende a ninguém, pois não é difícil conhecer pessoas que passaram por isso em sua infânca. Eu mesmo conheço muitas.

Vale notar que isso ainda acontece, claro, especialmente em regiões onde é proliferada a pobreza. Mas se antigamente essa era a regra, hoje ela é a exceção. Hoje, pais querem que seus filhos tenham a melhor educação possível, desde a infantil até a superior. Quem pode paga mensalidades de mais de R$3000 para que seus filhos possam estudar nos melhores colégios particulares, e mais de R$5000 para que estudem nas melhores faculdades. Quem não pode trabalha em dois, três empregos para que seus filhos possam se dedicar aos estudos mesmo em precárias escolas públicas, mas pelo menos sem ter que trabalhar.

E tudo isso indica que a educação hoje realmente é valorizada. Mas por quais motivos? Para a população mais carente, a educação representa uma porta de saída da miséria e da pobreza. Para a classe média, a educação é tida como um passaporte para maior qualidade de vida. Para os mais ricos, a educação é considerada necessária para manter um alto padrão de vida. E tudo isso é bom, mas, infelizmente, todos veem a educação como uma atividade profissionalizante, ou seja, que tem como propósito a formação de profissionais.

O problema é que esse é o único motivo pelo qual nós valorizamos a educação, que é considerada essencial apenas na medida em que ela nos fornece oportunidades de trabalho. Isso significa que, na verdade, o que a gente valoriza mesmo é trabalho, e não educação – assim como acontecia décadas atrás. Mas se antigamente era possível arrumar um emprego relativamente bom mesmo sem completar o 2º grau, hoje o diploma do ensino médio já não é o suficiente. Hoje, para alcançar a mesma estabilidade profissional e financeira de antes, é necessário cursar alguma forma de ensino superior, como de tecnologia, licenciatura, bacharelado ou algo assim.

Dessa forma, jovens no passado costumavam largar os estudos devido não só à diversas questões familiares mas também à falta de incentivo da própria economia e, consequentemente, da sociedade em geral – incentivos que, hoje, obrigam todos a levar em consideração o papel da educação em nosso dia a dia. E, como já foi dito, tudo isso é bom, mas, infelizmente, “para nós a educação é só para melhorar o salário do filho, não é para que ele seja rico na própria cultura” [1]. É por isso que quando alguém diz que quer estudar filosofia, sociologia, história, ou algo assim, ele se depara sempre com as mesmas questões: mas isso dá dinheiro? Você vai trabalhar com o quê?

Mas o que tem a ver a educação com dinheiro e trabalho? Sim, nós precisamos de dinheiro para sobreviver [2], e dinheiro geralmente se ganha com trabalho, mas uma vez que nossa sobrevivência não está em jogo – como, de certa forma, é o caso não só da classe alta mas também da classe média no Brasil – o papel da educação em nossas vidas deve ir muito além do profissional. A alternativa, assim como explica a frase de Paulo Freire citada acima, é nos contentarmos meramente em nos adaptar: à realidade, à visão de mundo, ao modelo de vida que nos é imposto pela sociedade. Ou seja, é nos limitarmos à forma de ser das plantas e dos outros animais, que não vivem mas sobrevivem, se adaptando às condições que lhes são impostas pela natureza.

E isso é exatamente o que acontece no Brasil de hoje. Ao reduzir a educação – a nossa, a de nossos filhos, e a dos demais membros da nossa sociedade – a uma atividade meramente profissionalizante, a gente se restringe a agir com a mesma ingenuidade de uma formiga que trabalha em colônia, ou de um castor que constrói uma barragem. Claro, nós somos muito mais sofisticados: nós usamos telefones, internet e satélites para trabalhar em equipe, e nossas represas produzem energía elétrica. Mas ao ser humano cabe ainda mais que isso.

É única e exclusivamente humana a capacidade de aprender, não apenas para nos adaptar mas para quebrar paradigmas para que possamos transcender a novas realidades. Dessa forma, cabe ao ser humano se educar do mesmo modo que cabe ao peixe nadar e ao pássaro voar. (Nós sabemos nadar e voar também – com cilindros de ar comprimido e submarinos, paraquedas e aviões – mas devido à nossa educabilidade, nós precisamos ir ainda mais além).

[1] Frase emprestada do educador e senador Cristovam Buarque.

[2] Na verdade, para sobreviver (e viver!) com dignidade e algum conforto, nós não precisamos de dinheiro, mas sim de alimentação, moradia, saúde, lazer, e outras coisas mais. Sim, essas são todas coisas que nós geralmente conseguimos com dinheiro, mas isso não significa que é apenas com dinheiro que elas podem ser obtidas.

Foto: Eduardo Penna

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