O que é filosofia?

Esclarecedora e fundamental, interessante, porém desnecessária, complexa e inútil; são diversas as opiniões sobre filosofia e seu papel em nosso dia a dia. Talvez isso seja devido à dificuldade que se tem em entender exatamente o que é filosofia, por ser difícil sua definição. De qualquer modo, com um pouco de reflexão nós aprendemos que aspectos da filosofia estão por toda a parte moldando nossa vida cotidiana, e que, portanto, filosofia é mesmo essencial. Mas por quê? E para quê?

Ter os olhos fechados sem tentar abri-los jamais; assim é viver sem filosofar [1]. – Descartes

A palavra “filosofia” tem origem grega e significa “amor à sabedoria”, e o filósofo é, antes de mais nada, alguém que ama o saber. Com isso, já podemos fazer uma importante observação: todo mundo, absolutamente todo mundo, já foi filósofo um dia. Isso porque a curiosidade das crianças e sua admiração diante do desconhecido são as expressões mais puras da filosofia [2], e todo mundo, absolutamente todo mundo, já foi criança um dia. O filósofo é alguém que, mantendo a curiosidade e a admiração de sua infância, não se conforma com a visão de mundo que lhe é imposta pela sociedade e se recusa a se adaptar à realidade formada por ela.

Seria difícil encontrar uma pessoa que se diga contra a sabedoria e a compreensão e que seja, assim, a favor da ignorância. Por mais enganado que esteja, até o mais insensato dos indivíduos tem, mesmo que subconscientemente, suas opiniões – e convicções! – sobre o que é certo e o que é errado, o que é verdadeiro e o que é falso, e assim por diante. Isso significa que, de uma maneira ou de outra, todos nós pensamos ser filósofos. A frase de Descartes citada acima nos leva a essa mesma conclusão, pois seria difícil encontrar alguém que viva de olhos fechados e saiba disso – alguém que viva, conscientemente, sem filosofar. Ou você pensa estar de olhos fechados mesmo agora, enquanto olha para a tela do computador?

Filosofia para quê?

A filosofia serve para que nós possamos ver além da realidade formada pelos nossos (pre)conceitos, para que nós possamos reconhecer que há mais possibilidades do que as que podem ser facilmente vistas. Se por um lado a sociedade nos diz que tudo é possível, que com esforço e muito trabalho nós podemos realizar nossos sonhos e alcançar qualidade de vida, por outro ela de tudo faz para limitar nossas opções e nos instrumentalizar a seu serviço. Na teoria, qualquer pessoa dedicada que realmente queira pode estudar em uma ótima escola, aprender um outro idioma, obter um emprego importante e viajar para lugares incríveis, independente de cor, gênero e classe social. Na prática, nossas opções são limitadas por esses e muitos outros fatores biopsicossociais [3].

Quais são as chances de um jovem se formar em medicina se seus pais forem médicos bem-sucedidos? E se seu pai for operário e sua mãe empregada doméstica? E se o jovem nascer no interior do Pará, a 1200km da universidade mais próxima? E se o jovem nascer em São Paulo, mas for deficiente físico ou mental? Qual é a probabilidade de que o modelo de vida imposto a cada um desses indivíduos seja compatível com seus interesses e suas habilidades?

É importante notar que nenhum desses fatores está sob nosso controle. Nós não escolhemos a profissão dos nossos pais ou a cidade onde nascemos, muito menos nossa disposição física e mental para determinada atividade. Ainda assim, esses fatores ajudam a definir nossas vidas, independente de nossas vontades e capacidades. Aliás, e essas vontades e capacidades, que muitas vezes determinam nossas ações e atitudes mais do que qualquer outra coisa, nós as escolhemos?

Fatores que estão além do nosso controle irão sempre definir nossas vidas, mas apenas na medida em que nós deixamos que o façam. “Quando nós não nos conscientizamos de um processo que occorre em nosso interior, ele se apresenta no exterior como destino” [4]. A filosofia permite que a gente mude a nossa visão tomando consciência desses fatores. Quanto mais nós desvendamos os mecanismos por trás de nossas ações, menos força eles têm para determinar nossas vidas e mais escolhas nós podemos fazer. Não é à toa que a filosofia foi banida do ensino médio no Brasil durante a ditadura militar: filosofia é prejudicial à complacência.

Por quê filosofia?

Filosofar é buscar conhecimento pelas causas, pelas razões, analizando aspectos fundamentais da nossa existência que acabam por moldar nossas vidas. Isso porque a filosofia é a investigação crítica do porquê das coisas, e o porquê das coisas nunca é tão simples quanto nós imaginamos. Diferente da religião, a filosofia rejeita argumentos de autoridade (fulano disse, então é verdade), argumentos de fé (eu acredito, então é verdade) e a infalibilidade de qualquer fonte de informação, entre muitas outras falácias [5]. Assim como a ciência, a filosofia procede com argumentos racionais e suas verdades estão sempre abertas à refutação.

Por quê as coisas são como são e não de alguma outra forma? Por trás de toda e qualquer investigação filosófica está essa questão, que, por sua amplitude, pode – e deve! – ser abordada de diferentes maneiras e a partir de diferentes pontos de vista. Por isso, a filosofia baseia-se nos mais diversos ramos do conhecimento, desde matemática e física até medicina e psicologia. A filosofia se encontra na intersecção de todas as outras disciplinas porque foi a filosofia que deu origem a elas. E o filósofo, apesar de nada saber, por tudo se interessa.

Quando nós reconhecemos a nossa falta de conhecimento sobre um determinado assunto nós sentimos a necessidade de aprender. Infelizmente, nós raramente reconhecemos que não sabemos ou que não entendemos algo. Como dizia o filósofo estóico Epiteto, “é impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe”, e por isso nós precisamos duvidar de tudo, até dos nossos próprios conhecimentos. Foi isso que levou Sócrates, um dos fundadores da filosofia ocidental, a declarar “só sei que nada sei” e a questionar tudo a partir dali. Ou talvez ele tenha questionado tudo até que ele soube que nada sabia. Não sei. Mas uma coisa é certa: quanto mais nós questionamos, mais nós (des)aprendemos, e mais a filosofia nos abre os olhos.

Filosofia analítica: uma observação

Filosofia é assim, ampla, abstrata, mas isso não significa que filosofia seja conversa fiada. Muito pelo contrário. A filosofia visa sempre a explicar algo, a esclarecer alguma ideia, a definir algum termo ou a fazer alguma distinção através da análise conceitual, se restringindo a normas de raciocínio e argumentação, a regras da lógica (de diferentes sistemas lógicos), fatos empíricos, e assim por diante. Na verdade, essas são características mais específicas a uma vertente da filosofia contemporânea chamada de “filosofia analítica”, desenvolvida no século passado em países de língua inglesa, especialmente no Reino Unido e na América do Norte. Filosofia analítica é diferente, por exemplo, de tradições filosóficas originadas na Europa denominadas por filósofos analíticos como “filosofia continental”.

Embora essa seja uma distinção significativa no mundo acadêmico, ela é, pelo menos por enquanto, desnecessária para os propósitos do Enganos Mundanos. Isso porque o principal objetivo do blog, assim como um dos principais objetivos da filosofia independente da tradição, é identificar os pressupostos que formam nossa visão de mundo para que nossa percepção deixe de ser baseada em preconceitos, sejam eles oriundos da nossa infância, dos nossos costumes, ou até mesmo da nossa linguagem. Só assim nós podemos chegar a conclusões razoáveis para que a nossa perspectiva possa melhor refletir a natureza da realidade.

[1] Tradução livre da belíssima frase do filósofo francês: “C’est proprement avoir les yeux ferméssans tâcher jamais de les ouvrir, que de vivre sans philosopher”.

[2] Platão, um dos fundadores da filosofia ocidental, dizia: “A admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia”. E segundo Aristóteles, que foi aluno de Platão: “os homens começam e sempre começaram a filosofar movidos pela admiração”.

[3] Fatores que não são biológicos ou psicológicos ou sociais, mas sim biológicos e psicológicos e sociais.

[4] Tradução livre da observação genial de Carl Jung, fundador da psicologia analítica: “When an inner situation is not made conscious, it appears outside as fate”.

[5] Na filosofia, uma falácia é um padrão de raciocínio que está sempre equivocado, por ser inválida ou falha a estrutura lógica de seu argumento, o que não significa que ele não possa ser persuasivo. (Inclusive, a retórica, tanto usada por políticos, líderes religiosos e outros, é a arte de comunicar de forma persuasiva argumentos independente de sua validade.)

3 comentários

  • Flávio Sarti em 05 Feb 2013 comentar

    muito muito bom , parabéns ! Queria conversar com vc Bru .

    nóis !

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