O mundo fenomenal

É impressionante o quanto nós conseguimos fazer mesmo enganados quanto à natureza da realidade. Realizamos desde as atividades mais mundanas – como dirigir carros, comprar imóveis e criar filhos – até as mais sofisticadas – como construir sistemas políticos, colocar satélites em órbita e apreciar arte –, tudo sem entender o que antigas tradições orientais já sabiam há milhares de anos: que nós vivemos em um mundo interdependente. Em nossa sociedade cada vez mais individualista, nós achamos que nós existimos como indivíduos autônomos quando, na verdade, nós coexistimos com toda a existência.

Saiba que todas as coisas são assim:

Uma miragem, um castelo de nuvens,

Um sonho, uma aparição,

Sem essência mas com qualidades que podem ser vistas. – Buda Gautama

À primeira vista, a afirmação de que todos nós estamos interligados através da “teia da vida” pode parecer incontroversa, até mesmo clichê. No entanto, depois de uma análise mais detalhada nós vemos que suas implicações contrariam a maioria dos valores, das emoções, das ideias e das crenças que temos como membros da nossa sociedade. Isso porque quando nós questionamos seriamente a origem ou a causa das coisas, nós percebemos que sua existência é relativa e que, portanto, elas não tem essência. Isso significa que tudo é impermanente, nada é absoluto, e ninguém é unicamente responsável pelo que é ou deixa de ser. É justamente isso o que ensina a psicologia budista.

Budismo: uma psicologia

O budismo é comumente tido como uma religião, mas, devido às conotações associadas a esse termo, seria mais correto considerá-lo uma filosofia ou – melhor ainda – uma psicologia [1]. Isso porque o budismo, através de avaliações empíricas [2], centra-se na mente e na consciência humana na busca da compreensão da realidade. Sidarta Gautama, príncipe da Índia fundador do budismo, na verdade, buscava mais do que mero conhecimento: ele buscava aliviar o sofrimento humano. Foi então que ele descobriu que a causa do sofrimento está dentro, e não fora, de nós.

Mas o que é que interdependência e impermanência tem a ver com isso? Pois bem. Se nós questionarmos as origens e as causas de uma folha de papel, por exemplo, nós chegamos rapidamente à conclusão de que papel é algo condicionado [3]: papel é composto de fibras vegetais que provêm de polpa de madeira de árvores que, por sua vez, provêm de sementes que precisam de ar, água, solo fértil e luz do sol para germinar e crescer, além de infinitas outras coisas [4]. Com isso, nós aprendemos duas coisas importantes. Primeiro, que papel não existe inerentemente como papel, mas sim interdependentemente como uma relação entre sementes, ar, água, solo fértil, luz do sol, além das infinitas outras condições que tornam o papel possível [5]. Segundo, que uma folha de papel é impermanente, pois tudo o que é condicionado está sujeito à mudança e à desintegração – pois tudo o que tem um começo tem também de ter um fim.

E o que é que sofrimento tem a ver com isso? É que apesar de compreender que não há existência inerente e que todas as coisas compostas são impermanentes, muitas vezes nós não aceitamos esses dois fatos da vida e nos apegamos às coisas como se elas fossem estáveis, duradouras. No caso da folha de papel, nós entendemos que ela existe apenas sob certas condições e que ela pode ser destruída a qualquer momento. Ainda assim, nós entramos em desespero quando alguém derrama água na carta de uma ex-namorada ou de um falecido ente querido. O que Sidarta descobriu foi que a nossa tendência a se apegar ao que é transitório nos causa mais sofrimento do que a própria transição das coisas, que é constante. Para amenizar a nossa predisposição ao apego e, consequentemente, aliviar o nosso sofrimento, nós precisamos estar sempre cientes de que nós vivemos em um mundo fenomenal, isso é, um mundo feito de aparências.

Fenomenologia: uma observação

A filosofia ocidental, assim como o budismo e outras tradições orientais, também reconhece o fato de que o nosso é um mundo feito de aparências. A fenomenologia, fundada pelo filósofo alemão Edmund Husserl [6], afirma que nós não somos capazes de compreender o próprio mundo, isso é, o mundo externo às nossas mentes, o mundo real. Por isso, a fenomenologia se interessa pelo modo como o mundo fenomenal se realiza para nós, e estuda a experiência subjetiva do ser humano.

Nesse sentido, dizer que algo é fenomenal não é o mesmo que dizer que ele é extraordinário ou algo do tipo, mas sim que ele é perceptível aos sentidos através de experiência imediata. Na verdade, tanto para a psicologia budista quanto para a fenomenologia, as coisas são consideradas fenomenais porque, para nós, elas nada mais são do que a percepção que nós temos delas. Dessa forma, estudar o mundo fenomenal é procurar entender não o mundo que existe – que não nos é acessível –, mas o mundo como nós o construímos em nossas mentes.

Distorção cognitiva

Na psicologia ocidental [7], são consideradas distorções cognitivas pensamentos exagerados e irracionais, e, de certa forma, as percepções exageradas e irracionais nas quais eles se baseiam [8]. Por exemplo, se uma pessoa entra em pânico sempre que ela vê um cachorro porque ela foi mordida por um cão em sua infância, para a psicologia ocidental ela tem uma distorção cognitiva. Já a psicologia budista tem uma visão muito mais ampla sobre o assunto.

Quando nós olhamos para um objeto (p. ex. uma cadeira), nós tendemos a vê-lo como um conceito estável (p. ex. um móvel feito para se sentar), e não como um conjunto vulnerável de suas partes constituintes (p. ex. madeira, pregos, o trabalho de um marceneiro) e suas partes constituintes (p. ex. fibras vegetais, metal, formação em um curso de aprendizagem industrial) e assim por diante. Isso acontece porque conceitos moldam a maneira como nós vemos, e controlam o nosso modo de olhar. É justamente por isso que, para a psicologia budista, todos nós temos distorções cognitivas.

Não é difícil pensar em momentos onde nós nos apegamos a algo devido a nossa percepção inadequada. Nós extraímos conceitos do mundo e, como se não bastasse, o fazemos sempre em relação a nós: esse celular é meu, essa ideia é minha, essa é a minha namorada. Se o celular é seu, como pode ele ser tirado de você? De onde veio essa ideia sua? Se sua namorada é o que ela é, como pôde ela existir antes mesmo de te conhecer?

Mas talvez a pior das distorções seja o fato de que nós vemos nossos sentimentos, nossos pensamentos e até mesmo o nosso eu como coisas sólidas e duradouras, o que nos causa um profundo sentimento de frustração e insatisfação. Nós nos apegamos a diversas imagens que nós temos de nós mesmos, como se elas constituíssem nossa verdadeira identidade: eu sou brasileiro, eu sou advogado, eu sou bilíngue. Mas que escolha você teve de nascer no Brasil? Você seria advogado se você tivesse nascido em uma aldeia no interior da Etiópia? Você teria orgulho de ser bilíngue se você tivesse nascido na Suiça?

Percepção sintonizada

Conceitos existem em nossas mentes e nós os projetamos no mundo. Nós não enxergamos as coisas como elas são porque nós não estamos abertos a isso – nós não aceitamos a vulnerabilidade das coisas porque nós não aceitamos a nossa. Mas nós não temos escolha: tudo é passageiro porque nada é absoluto, e quanto mais nós rejeitamos esse fato, mais angústia nós nos causamos. Para transcender os paradigmas que formam a nossa visão de mundo e o sofrimento causado por eles, nós precisamos antes reconhecer que nada é o que parece.

Nós atribuímos qualidades às coisas baseado no que pode ser visto em sua superfície e nos apegamos a elas como se elas fossem fixas, substanciais. É a isso que se refere a frase de Buda Gautama citada acima. Sofrimento surge quando a realidade se choca com a nossa percepção inadequada dela. Por isso, nós precisamos lembrar que ideias existem em nosso interior e não no mundo externo às nossas mentes – nós precisamos sempre lembrar que nós vivemos em um mundo de aparências. Sem consciência disso, nossas vidas serão sempre guiadas por ilusões.

[1] É verdade que o budismo, por ser de origem oriental, não pode ser corretamente tachado de “religião”, “filosofia” ou “psicologia”, que são conceitos de origem ocidental. No entanto, podemos adotar um ou outro conceito quando falamos de budismo para estabelecer, por exemplo, o ponto de vista sob o qual falaremos dele.

[2] Uma avaliação empírica é procurar entender algo por si próprio através de sua própria experiência.

[3] Dizer que algo é condicionado é dizer que algo é formado, constituído de diversas partes.

[4] É necessário, por exemplo, que um pássaro não coma a semente para que a árvore cresça e a fábrica produza o papel. É necessário também que haja uma fábrica, e assim por diante.

[5] O que nós chamamos de “papel” é justamente essa relação entre tudo que o torna possível, e não um objeto sólido como imaginamos normalmente.

[6] Apesar de ter sido fundada no início do século passado, a raíz da fenomenologia de Husserl está na filosofia de Immanuel Kant, outro filósofo alemão. Isso porque Kant fez a distinção entre coisas em si – das quais nós não podemos ter experiência – e fenômenos – que são as aparências das coisas, interpretadas pelos nossos sentidos e pela nossa habilidade de compreender.

[7] Psicologia no ocidente tem suas raízes nos antigos filósofos gregos e se separou da filosofia no fim do século 19, e foi em grande parte desenvolvida no século passado.

[8] Isso porque pensamentos e percepções existem em uma relação dinâmica; um forma o outro e vice-versa.

Foto: eworm

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